Amina Vali e Inaara Genebra Ahmad - Clã do Grupo 36 Lisboa - partilharam, na primeira pessoa, o impacto que a pandemia teve nas suas vidas pessoal, escolar e escotista, através de dois artigos de opinião que poderão elucidar um pouco a forma como muitos jovens (sobre)vivem a pandemia.

Amina Vali e Inaara Genebra Ahmad - Clã Grupo 36 Lisboa

 

A pandemia da COVID-19 trouxe inúmeros desafios, incluindo para os jovens, fazendo com que todo o mundo tomasse medidas para que as vidas continuassem em “movimento”, ajustando-se às novas regras e realidades.

No início da pandemia, as creches e as escolas fecharam de um dia para o outro, forçando a interrupção do convívio entre os jovens, e obrigou ao confinamento bem como à adoção de diversas restrições que estiveram, e estão a ter, um impacto significativo no estado de saúde mental dos jovens: parece-me que os mais velhos, em que se concentra a maior taxa de mortalidade, parecem estar a lidar melhor com a situação e sentem-se menos afetados - mas será que estes acontecimentos têm alguma explicação?

O contacto físico e a socialização são fundamentais para o bem-estar de todo o ser humano, mas os jovens são particularmente vulneráveis porque mudanças drásticas no meio onde estamos inseridos podem condicionar negativamente o nosso desenvolvimento social e emocional.

O maior impacto nos jovens sentiu-se quando começámos a ter aulas em casa, causando até uma situação cómica: todos nós adoramos estar de férias e em casa no tempo escolar (como por exemplo, quando um professor falta) e com esta situação, ficámos todos muito “empolgados” pelo facto de não irmos à escola e ficarmos em casa de “férias”. No entanto, ficar em casa de livre vontade é bastante diferente de ficarmos em casa obrigados e isto é cada vez mais notório à medida que o tempo passa, pois as coisas não foram bem planeadas e, passado algum tempo, os estudantes já estavam a implorar para voltarem à escola, tendo esta situação causado uma grande disrupção na rotina e dia-a-dia dos jovens.

No início da pandemia, foi bastante difícil a adaptação à nova realidade, pois todo mundo optou por um sistema virtual, e o caso das aulas não foi exceção: passámos todos a ter aulas virtuais. Devo confessar que até estava confiante para este novo método de aulas, pois tudo parecia mais favorável: não tinha de me deslocar à escola e, acima de tudo, os testes seriam mais “facilitados”. No entanto, bastaram-me duas semanas para mudar o meu pensamento e para tudo se complicar.

Principalmente nas primeiras semanas em que estive a ter aulas virtuais, senti-me muito atarefada a nível escolar, pois sentia que tinha muitos trabalhos para um período bastante curto, o que causou bastante stress e frustração: sem dúvida que trabalhei muito mais em casa do que teria trabalhado se estivesse na escola presencialmente. A partir de casa, foi mais complicada a realização das tarefas propostas no tempo que tinha definido, visto que tinha muito mais distrações e, só pelo facto de estar em casa, procrastinava ainda mais pois o ambiente de estar em casa não se equipara ao escolar, não contribuindo para se criar as condições de produtividade e concentração que antes dispunha.

Um dos meus grandes problemas, e acredito que os outros jovens estudantes sentiram o mesmo, foi o facto não ter aprendido nada virtualmente, e no meu caso, a matéria “dada” será importante para a realização dos exames nacionais deste ano, como também foi anteriormente. Além disso, o que tornou mais difícil a nossa (minha) aprendizagem, e de certa forma até fez com que fosse mais aborrecida, foi o facto de ninguém participar e tirar dúvidas, o que não aconteceria presencialmente.

Apesar de as aulas virtuais não terem corrido como se estava à espera, nem tudo foi mau neste método: ao longo do tempo, consegui ter mais autonomia, responsabilidade (entregar tudo a tempo e horas) e até aprendi a gerir o tempo (fazer tudo o que foi proposto no tempo estimulado). E, apesar de esta situação nos ter tirado a nossa liberdade, posso dizer que tive mais liberdade a nível escolar, isto é, podia fazer as coisas quando queria e não tinha aquela pressão que a escola dá.

Ao nível de atividades fora da escola, penso que todos os jovens tiveram de se adaptar e, no meu caso, as reuniões escotistas passaram a ser virtuais, tal como as aulas (e a maioria das atividades), o que teve um impacto péssimo no meu desenvolvimento, pois apesar de ter sempre desafios e outras tarefas propostas, não tinha vontade e/ou motivação nenhuma de as fazer, acabando por as ver como uma “obrigação” e não de livre vontade.

Tenho consciência de que este ano não foi fácil para ninguém e foi preciso muito trabalho para que as reuniões fossem o mais normais possível, no entanto, nem tudo foi possível (como expedições e empreendimentos). Apesar disso, o grupo adaptou-se rapidamente e as reuniões continuaram a ajudar os jovens escotistas.

Contudo, vi este ano como um ano de aprendizagem e cooperação, pois fiz coisas que nunca pensei fazer. Estar mais afastada das pessoas fez com que houvesse mais entreajuda, principalmente a nível escolar, pois falei com pessoas (da minha turma) com quem não falava assim tanto e senti que houve mais ajuda uns com os outros. Este tempo de pandemia deu para fortalecer amizades e ver o valor que as pessoas e a comunicação fazem no nosso quotidiano. Assim, a pandemia teve e está a ter um grande impacto social e emocional. Quero acreditar que com a pandemia as pessoas deixarão de ser tão egoístas e que começamos todos a valorizar mais o que temos à nossa volta, pois esta situação ensina uma grande lição: num dia podemos ter tudo e noutro perdemos com facilidade.

Por Amina Vali

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Considero que 2020 foi um dos anos mais complicados, a nível mundial, que já se viu em muito tempo. Pessoas ao redor de todo o mundo morreram de doença ou estiveram infetados, muitas perderam os seus empregos e, por isso, passaram por dificuldades financeiras podendo ter chegado a situações mais extremas, como passar fome. Mesmo as pessoas que conseguiram manter os seus empregos e alguma estabilidade económica enfrentaram grandes mudanças nas suas vidas.

No entanto, posso falar apenas da minha experiência enquanto jovem estudante.

Atualmente sou estudante da Escola Secundária da Amadora, do curso de Ciências e Tecnologias do 10º ano. Porém, durante o tempo de confinamento frequentava o 11º, um ano determinante na minha vida académica devido aos exames finais das disciplinas específicas para entrada na faculdade.

A partir do início de março deste ano, fomos surpreendidos com o encerramento dos estabelecimentos de ensino. Pensámos que seria provisório, mas tornou-se uma realidade muito diferente da que esperávamos. As nossas expectativas de umas férias a mais em casa transformaram-se em ensino à distância.

Este modelo de ensino, como tantas outras coisas na vida, teve os seus lados positivos, tais como a segurança e o conforto que só a nossa casa nos é capaz de proporcionar. A liberdade aliada à autonomia que nos foi dada para trabalharmos ao nosso ritmo e com os nossos horários teve, contudo, o seu lado negativo, com a sobrecarga de trabalhos, fichas, questões de aulas e apresentações. Tudo isto, com prazos bem apertados e com a privação de ensino de qualidade, pois tanto professores como alunos tiveram extrema dificuldade na adaptação a este novo método de aulas online, já para não falar da grande pressão e receio de ambas as partes por causa dos exames nacionais.

Academicamente falando, acredito que este foi um dos anos mais complicados que já vivenciei, visto que os conteúdos eram complexos e a forma como parte deles foi lecionada não foi a mais adequada a esta nova realidade. Deste modo estes não foram tão bem interiorizados pelos estudantes, o que gerou muita insegurança, ansiedade, frustração e arrisco-me a dizer que, por vezes, desespero. Acredito que estes sentimentos negativos tenham sido causados, essencialmente, pela má gestão do tempo, pela desmotivação/desinteresse pelas temáticas escolares devido a variadas distrações que tínhamos à nossa disposição, pela pressão dos exames, etc.

Como a nossa vida não se resume à escola, acho que é importante falarmos do impacto desta pandemia noutras áreas:

A nível escotista foi implementado uma espécie de escotismo à distância, no qual as reuniões passaram a realizar-se em regime online através de videochamadas e de várias propostas de desafios. Assim sendo, na minha perspetiva foi um ano de muito esforço, tanto da parte da chefia como da parte das divisões, para que fossem feitas atividades o mais interessantes e dinâmicas possível, dadas as nossas circunstâncias. Contudo, o facto de não terem sido possíveis expedições/acampamentos, afetou muito a motivação para continuar a participar regularmente nas atividades, pois são estas grandes atividades que acabam por enriquecer a vida escotista.

A nível social, sinto que este período em que estivemos em casa foi bastante prejudicial, porque não pudemos conviver tanto quanto gostaríamos com os nossos familiares, amigos e colegas, devido ao distanciamento físico, especialmente durante a quarentena. Embora pudéssemos comunicar pelas diversas redes sociais, este contacto “superficial”, a meu ver, não substituiu de todo a convivência a que estávamos habituados. Portanto, creio que todos, a determinada altura, nos sentimos sozinhos. Felizmente posso dizer que a minha relação com a minha família ficou fortalecida por causa de todo o tempo que tivemos de passar juntos.

A nível de saúde física, também foi um ano complicado. Se por um lado, felizmente, ainda não fiquei infetada, por outro, foi um ano dominado pelo sedentarismo. Como tal, no meu isolamento reinou a má alimentação e falta de exercício físico, saía da cama para a cozinha, da cozinha para a secretária e da secretária para a cama, o que resultou na acumulação de gordura, perda de massa muscular, aumento de peso, perda da resistência física, entre outras.

A nível de saúde mental também fiquei bastante abalada. À medida que o tempo de confinamento foi passando, comecei a ter pensamentos depreciativos sobre mim com maior frequência, portanto, a minha autoestima ficou bastante abalada. Também me comecei também a sentir desmotivada sem motivo aparente, extremamente stressada e um pouco ansiosa.

Um fenómeno que achei bastante interessante foi a forma como nos agarrámos à cultura e ao entretenimento durante estes meses mais tristes. Diria até que estes foram uma escapatória à realidade pesada pela qual estamos a passar. Parecia que quanto mais tempo ficávamos em casa mais os artistas lançavam músicas alegres e dançantes. Não só as músicas, mas também as plataformas de streaming foram o que “salvou” a minha quarentena.

Com a reabertura das escolas, voltei a sair de casa, a conviver com pessoas que não os meus pais e a minha irmã, o que me fez sentir muito feliz, como se por momentos tudo voltasse a ser como antes. Porém, foi sol de pouca dura pois à medida que o ano letivo foi avançando o meu medo relativamente ao vírus também foi crescendo, quase que proporcionalmente, por ver que à minha volta amigos, colegas, professores, funcionários foram sendo infetados. Já para não falar da frieza que é estarmos diariamente com pessoas que gostamos e não lhes podermos dar um abraço ou manter pequenos hábitos que nos eram tão naturais quanto emprestar um lápis ou qualquer outro material, a serem agora perigosos e situações a evitar.

Enfim, após a adaptação às novas regras posso dizer que estou muito feliz de estar a ter aulas presencialmente, estas dão-me uma leve sensação de normalidade, mas, essencialmente, dão-me esperança de que um dia vamos poder voltar a viver como antes, com abraços, com partilhas de materiais, com festas, convívios com amigos, sem máscaras nem distanciamentos, sem medos ou receios.

Posso dizer que, neste final de ano, depois de tanta dor, tanto stress, tanto desleixo para comigo e para com os outros, estou a cuidar mais de mim e dos que me são próximos, tenho tentado levar uma vida mais leve, sem me preocupar tanto com coisas “passageiras”, fúteis, efémeras. Confesso que estou bastante esperançosa e curiosa para o que virá em 2021.

Desejo a todos boas festas, paz amor e muita saúde!

Por Inaara Genebra Ahmad