Discurso na Cerimónia de Lançamento da Primeira Pedra do Centro Ismaili, Lisboa

O arquiteto Raj Rewal apresenta a maquete do Centro Ismaili, Lisboa ao Presidente Sampaio e a Mawlana Hazar Imam. Gary Otte

Discurso de Mawlana Hazar Imam na Cerimónia de Lançamento da Primeira Pedra do Centro Ismaili, Lisboa na Quarta-feira, 18 de Dezembro de 1996.

Sua Excelência Senhor Presidente da República,
Sua Excelência Representante do Presidente da Assembleia da República,
Sua Excelência Representante de Sua Excelência Primeiro-Ministro,
Sua Excelência Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
Ilustres Convidados,

Senhor Presidente, estamos todos profundamente honrados pela sua presença aqui hoje, numa ocasião tão importante, pois trata-se de um momento histórico para os muçulmanos Ismailis de todo o mundo e para mim próprio. A cerimónia de hoje tem um significado muito especial para nós, uma vez que assinala muito mais do que a fundação de um local de reunião para a comunidade. O Centro Ismaili irá dedicar-se à preservação dos valores espirituais, à promoção do desenvolvimento social e à valorização da descoberta intelectual, e irá procurar contribuir para que tanto os cidadãos como os visitantes de Lisboa possam desfrutar dos seus espaços e edifícios cuja inspiração terá como objetivo compreender e expandir os nossos horizontes culturais.

O espaço que será criado pelo Centro no meio desta cidade histórica irá funcionar, espero eu, como uma ponte de ligação e enriquecimento de várias culturas da Europa com outras de África e da Ásia, colaborando com associações tanto de países de língua portuguesa como de outros. Ao fazê-lo, o Centro Ismaili seguirá assim a longa tradição dos marinheiros portugueses, que partiram deste mesmo porto de Lisboa para paragens distantes, à época tão improváveis e que acabaram por conseguir encurtar distâncias entre continentes e povos.

Falo em nome de todos os Ismailis, e em meu nome pessoal, ao expressar a nossa profunda gratidão a Portugal e à sua população, e a si, Senhor Presidente, assim como aos generosos doadores que disponibilizaram este local e tornaram possível o lançamento deste projeto. Queremos expressar a nossa gratidão não apenas pela vossa ajuda neste projeto, mas pela forma aberta e cooperativa como este país sempre ajudou a Comunidade Ismaili nos seus esforços, na promoção do seu progresso, e no reforço e realização das nossas expetativas e ambições. São poucos os países que demonstraram tamanha integridade e sinceridade em fazer com que as populações deslocadas se sintam em casa a partir do momento em que deixam as suas casas para trás. Agradecemos a Portugal pela sua ajuda, tanto a nível prático como moral, pela forma como a Comunidade Ismaili, que veio, na sua maioria, de Moçambique, mas também de outras partes da África de língua portuguesa, tem sido recebida com carinho e sem preconceitos. Temos a esperança de que, através da qualidade e do design dos edifícios que serão aqui construídos e através dos seus programas no sentido de melhorar esta grande cidade para todos, o Centro venha a tornar-se um símbolo concreto e duradouro da nossa amizade e compromisso.

O Centro Ismaili em Lisboa irá trazer para a capital de Portugal novos edifícios e espaços abertos ajardinados que almejam ser únicos ao nível da qualidade e do design, e que esperamos que portem consigo um certo prestígio. A cidade de Lisboa é uma metrópole onde se encontre o governo de Portugal, numerosas comunidades, instituições públicas e privadas - todas com inúmeras relações internacionais. E, claro, Lisboa tem sido um centro mundial de cultura e parte integrante da história humana. Lisboa é também o epicentro dos PALOP e um vínculo a muitos países onde se fala português em todo o mundo. Esperamos que o Centro Ismaili, e as suas atividades e programas aqui desenvolvidos por parte de vários componentes da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, consigam apresentar a Comunidade Ismaili de Portugal e a comunidade mundial como sendo uma comunidade e uma interpretação do Islão intelectualmente forte e com uma perspetiva humanista. Temos esperança que esta iniciativa revele uma comunidade que vive em Portugal e que, através do seu Centro e atividades, venha a partilhar a sua forte consciência social com o espectro mais amplo possível de pessoas e religiões em Lisboa e no estrangeiro.

Ainda que os Ismailis vivam no Ocidente desde o final da década de 1950, apenas foram construídos no Ocidente dois outros centros Ismailis com esta importância e magnitude, com o intuito de alcançar estes mesmos objetivos. Estes Centros, através de palestras, apresentações, conferências, recitais e exposições de arte e arquitetura, por si sós ou com a colaboração de outras entidades nacionais ou internacionais da área cultural, tornaram-se edifícios de referência que hoje refletem e simbolizam muito do que a Comunidade Shia Ismaili representa ao nível da sua atitude face à fé muçulmana, a sua organização, disciplina, consciência social, a eficácia das suas organizações comunitárias e, de um modo mais geral, a sua atitude em relação à vida moderna e à sociedade em que existe. Este Centro em Lisboa, como os seus antecessores no Ocidente, irá esforçar-se por não ser apenas um local de reunião para as orações, mas também um espaço de articulação de pensamento e impacto positivo na comunidade em geral.

Se for capaz de atingir estes objetivos após a sua abertura, terá uma influência significativa num grande número de formadores de opinião portugueses em vários sectores de atividade que reconhecerão o valor do Centro e da Comunidade Ismaili através das iniciativas do Centro. E é por estas razões que este local e os edifícios que aqui vão ser erguidos serão fruto de contribuições não só dos Ismailis de Portugal, mas também de muitos outros países.

Mas apesar de este novo Centro em Lisboa ter aspetos em comum com os seus dois antecessores no Ocidente e possa talvez até tirar partido da experiência deles na sua gestão, ele também difere significativamente deles, uma vez que este local em que nos encontramos hoje é muito maior do que os outros. Este Centro Ismaili será composto por um pequeno complexo de edifícios e uma grande área aberta com um espaço público ajardinado que trará para uma capital ocidental algumas das tradições singulares de design que se podem encontrar em tantos lugares famosos a céu aberto no mundo muçulmano. Dito isto, Lisboa, Portugal e a cultura portuguesa estão já intimamente familiarizados com a cultura muçulmana há mais de um milénio. Vemos a marca da tradição islâmica em muitos domínios da cultura portuguesa: na sua arquitetura, na sua linguagem, na sua música, pelo que este Centro nunca irá parecer exótico ou fora de lugar em Lisboa. Será público no sentido em que os membros da comunidade irão utilizar o local para entrar, conversar e desfrutar, e quando for usado pela Comunidade não-Ismaili de Lisboa, estes também estão convidados a aproveitar o local. Por outras palavras, o Centro Ismaili em Lisboa será capaz de contemplar atividades que não poderiam ser realizadas em nenhum dos outros Centros Ismaili no Ocidente.

Finalmente, neste importante dia de criação com vista à harmonia e ao humanismo, convém recordar que este Centro Ismaili será a sede da Fundação Aga Khan Portugal e, para além de reforçar a compreensão e promover o pluralismo, também estará preparado para alcançar alguns objetivos muito importantes e concretos. A Fundação Aga Khan Portugal irá procurar colaboradores com sede em Portugal para programas locais e para desenvolvimento no estrangeiro. Muitas organizações não-governamentais competentes atuam fora de Portugal, trabalhando para melhorar a qualidade de vida no Terceiro Mundo. E neste âmbito, a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento pode ser um parceiro importante e útil, dada a sua experiência considerável no desenvolvimento do Terceiro Mundo, e os seus laços com países do Terceiro Mundo. Gostaria de citar o exemplo de Moçambique enquanto uma nação que fala português, que é parte dos PALOP, e na qual a Rede Aga Khan para o Desenvolvimento irá trabalhar certamente no futuro.

Qualquer colaboração entre Portugal e a Fundação Aga Khan para o desenvolvimento e melhoria das nações mais pobres será facilitada pelo Centro Ismaili, que em breve estará edificado no local onde estamos hoje reunidos. Será portanto um parceiro útil para Portugal na tarefa muito concreta de melhorar as condições de vida para lá das fronteiras de Portugal e da Europa.

Espero sinceramente que este seja um centro de boa vontade, aprendizagem e experiência que sejam partilhados de forma aberta, um lugar edificante pela beleza do seu design, um lugar para os Ismailis portugueses, claro, se encontrarem e praticarem a sua fé, e esperamos que seja um testemunho duradouro do nosso compromisso com vista a um relacionamento longo e frutuoso com Portugal.